Numa tasca da Ajuda surgiu Cristina Lisboa

(Comunicação de Cristina Lisboa, proferida na cerimónia da entrega da XIV edição do Prémio Literário Orlando Gonçalves, em Outubro de 2011, com edição pela Publinédita, como opúsculo, em Dezembro de 2012)

Senhor Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Amadora, Dr. António Moreira; meus caros Manuel Simões, José Correia Tavares e José Fanha; Orlando César, em quem saúdo a grata memória de Orlando Gonçalves, ligado ao meu imaginário juvenil de uma família anti-salazarista pelo Notícias da Amadora, da liberdade ousada e dos confrontos e lutas contra a ditadura:

É com alegria que posso estar aqui com Cristina Robalo Cordeiro, a quem o Júri decidiu atribuir uma menção honrosa pelo seu escrito Reminiscências da Luz: histórias quebradas; saúdo todos os autores que concorreram à xiv edição do Prémio Literário Orlando Gonçalves; saúdo ainda todos aqueles que dispuseram do seu tempo para estarem aqui, no Auditório Municipal da Biblioteca Fernando Piteira Santos, a participarem nesta cerimónia de entrega do Prémio.

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É necessário que nesta ocasião me reveja no autor a quem este Prémio da Câmara Municipal da Amadora é dedicado. Desde logo sob a égide de uma actividade editorial e literária, que acolheu, por exemplo, na Orion, os autores iniciais de uma literatura grito de Liberdade e Civismo. Também a minha infância e juventude ficaram paredes meias com os livros e com a ousadia de os lançar ao público na expectativa de novas ideias, projectos, intenções, na visão do futuro, de um futuro de vida.

Para Todos os Homens Que Souberam Permanecer Homens dedicou Orlando Gonçalves o seu escrito de 1954, com as ilustrações de Cipriano Dourado e sob a invocação de Ferreira de Castro. Está aqui todo um concreto Programa que posso entender e reconstituir para mim, mas aquele que mais me seduziu, e seduz, veio do intento de, ele, escritor, prevenir os filhos para que os paradoxos da vida não lhes surgissem de surpresa. Quais os paradoxos? Segundo Manuel Ribeiro de Faria e Cipriano Dourado? Nas caminhadas para as colectividades da memória anarquista e operária? Nas visitas de PVDE ou suas descendentes? Ou apenas na beleza da escrita e dos poemas que não publicou?

Sim, nos imprevistos de todo o esforço pelo Bem, pelo Belo e pelo Verdadeiro, circunvoltas que me levaram, e levam, a outras moradas que Orlando Gonçalves, atento e curioso, gostará de saber.

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 Será talvez oportuno nomear aqueles que estão na origem do meu trilho literário: duas linhagens distintas e totalmente complementares: Orlando da Costa, Carlos Eurico da Costa, Cardoso Pires, entre outros que tomaram a diferença como normal e necessária, notáveis escritores que estavam na Literatura como na vida: desempoeirados, divertidos, críticos, livres.

Mais formais e igualmente importantes na minha formação literária: Henrique Barrilaro Ruas, um esteta do sagrado, a quem dedico a ficção narrativa que nos junta hoje neste Auditório, e António Vieira, um esteta do profano, a quem dediquei Quadros Narrativos – Estudos, de onde saíram as personagens que dão vida ao meu romance inaugural Nos Dois Crepúsculos e Ao Meio-Dia. Cada um a seu modo contribuiu também para o meu crescer na Literatura, e não apenas.

Se a memória histórica contextualiza, as conversas convividas com acervos de diversos arejamentos fazem-nos gente e obrigam-nos à nossa própria voz. Vem de mim a minha voz. Recebo ânimo e motivo para prosseguir e progredir na Literatura. Satisfação e responsabilidade combinam-se agora na expressão difícil entre as artísticas de maior dificuldade. A certeza de que os meus textos são e serão o efeito de talentos assimilados daqueles que os possuem portentosos firmou-se ainda mais.

António Vieira, meu amigo literário, continue de mangas arregaçadas. Os seus escritos são-me indispensáveis para evoluir. Compreenda a responsabilidade que me pesa. Não posso desapontá-lo, tão-pouco posso desapontar os meus amigos já ausentes, que se mantêm presentes, perduráveis, dentro de mim.

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 Numa tasca da Ajuda surgiu o meu pseudónimo literário. Orlando da Costa argumentava: nascida e criada em Lisboa. Cristina Lisboa! Eurico da Costa subscrevia, acrescentando que Cristina Paradela de Abreu não é nome que sirva uma escritora. Paradela de Abreu serve para outras coisas… Orlando da Costa ria, divertidíssimo com a malícia de Eurico da Costa. Assim nasceu Cristina Lisboa para a escrita literária.

Hoje alimento-me sobretudo da espessura daqueles que já partiram. Esses que me animaram, que me ensinaram, que me preencheram. É para eles que trabalho. Para os que já não me podem corrigir. Escuto-os ainda e sempre. E o Leitor a quem dirijo a minha lavra decerto também os há-de escutar. São audíveis nos meus textos.

Hoje sinto mais intensa a emoção de ter sido escolhida entre a turba que atravessou a vida de cada um dos meus amigos. Com sentida gratidão, projecto-me e realizo-me na companhia das suas biografias pessoais e artísticas, memórias vivas que me alentam e me elevam ao melhor de mim.

Neste momento de satisfação e de responsabilidade, agradeço também a todos os presentes neste auditório a vossa companhia.

Cristina Lisboa

Morreu a escritora Cristina Lisboa

A escritora Cristina Lisboa, pseudónimo literário de Cristina Paradela de Abreu, 56 anos, faleceu segunda-feira, em Lisboa, disse à Lusa fonte próxima da família.

A escritora venceu, em 2011, a 14.ª edição do Prémio Literário Orlando Gonçalves, na modalidade Ficção Narrativa, atribuído pela Câmara da Amadora, com o seu romance de estreia, Nos Dois Crepúsculos e ao Meio-Dia —  dedicado a Henrique Barrilaro Ruas.

Cristina iniciou carreira profissional como bailarina do corpo de bailado do Teatro Nacional de São Carlos, depois de ter estudado bailado clássico em Lisboa, Bruxelas, Cannes e Leninegrado. Como bailarina participou em produções do repertório clássico no Ballet Gulbenkian e fez parte da companhia de Elisa Worm, Dança Grupo.

Cristina Lisboa ensinou bailado clássico e foi assistente do professor de ballet Tony Hulbert. Foi professor de filosofia no Ensino Secundário em Lisboa e Cascais.

Doutorou-se pela Universidade Nova de Lisboa em História e Teoria das Ideias, com a dissertação O Génio como Expressão Exemplar de Urbanidade – Reflexões sobre Nijinsky.

Publicou vários livros, nomeadamente Do pouco que se sabe, alguma coisa deve passar-se assim (ensaios sobre criação em arte reunidos em volume, 2001), Cantatas (ficção, 2001), Um Mundo Perfeito (escrito sobre a Infância, epistolar, 2003), Quadros Narrativos – Estudos (ficção, 2007), Celebração (opúsculo, 2008), Jesus, que pesadelo! (opúsculo, 2009), Atitude (divertissement, 2010), Nos Dois Crepúsculos e ao Meio-Dia (romance, 2012).

Aguardam publicação os ensaios Os Modernos Ballets Russes e Do Génio – Reflexões sobre Nijinsky e a ficção Curtas.

Cristina Paradela de Abreu Rodrigues de Sousa era casada com Manuel Rodrigues de Sousa, médico, director da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Marta.

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